• Ana Paula Brasil

Conto de Areia e Mar

Atualizado: 16 de Out de 2020



"eu tenho um idílio de praia. de vida de encontro de areia e mar. uma crença sobre a minha verdadeira encarnação. como se eu mesma fosse uma praia, que numa noite de lua cheia, fez um pedido inconsequente e virou gente. e, em forma de gente, saiu andando pela terra, por curiosidade, procurando não sei o quê."




eu fora uma praia, que numa noite de lua cheia, fez um pedido inconsequente e virou gente. e, em forma de gente, saiu andando pela terra, por curiosidade, procurando não sei o quê. fui gente achando ser gente por um bom tempo. e como gente, por diversas vezes, fui à praia. deitei na areia e tomei sol. tive calor e tomei banho de mar. eu fui muito à praia, durante a minha infância e adolescência. eu sempre gostava muito de lá. gostava como gente gosta de praia, vento e verão no litoral. mas - já mulher, dentro do meu quarto, em minha casa, num dia que não teve nada de especial, eu deitei a cabeça no travesseiro e senti uma luz azulada iluminar-me o rosto. como os olhos de um amigo que há muito tempo não te vê. era a lua. naquele dia, eu - que na hora não soube - tive o primeiro sinal. aquela lua, sua luz intensa e estranha, não me era desconhecida. como gente que recebe uma boa notícia, logo depois, eu dormi com ela na cabeça. alegre até. em outra noite desimportante, vi a foto de um luar prateado no mar. linda também. e, na hora, pensei que aquela foto lembrava a minha infância. mas eu não sabia bem o quê da minha infância, nem dia, nem noite nenhuma. levei a foto para cama, dormi por cima dela sem perceber. de manhã, quando acordei com a foto amassada, ainda tinha no peito aquela tristeza típica de quem tem saudade. assim mesmo, foi só no terceiro sinal que entendi tudo. em outra noite. nesta já tinha algo de anormal no ar. passei o dia inteiro esperando alguma coisa, não sei o quê, que, quando cruzei a rua de casa, totalmente deserta, umas sete da noite, encontrei. a lua, cheia, no céu. foi olhar para ela e descobrir bruscamente que eu não era gente. que eu nunca fora gente. grande susto, daquele que suspende a dor. a notícia foi aterradora. corri para casa. ao abrir a porta, som de concha. minha alma em regressão. desabei, desaguei. corri para praia. com a roupa do corpo, tomei banho de areia. arrastei-me suplicante até o mar. água quente, calma, maternal. lavou-me o corpo, tirando de mim a areia branca. aconchegou tanto a minha alma, que adormeci no mar. até um moço me despertar na beira, de manhãzinha, antes mesmo do sol. era um pescador. deu para ver que daquilo ele sabia tanto quanto eu. não me perguntou nada, nem se eu estava bem. apenas me disse "vai para casa e toma um banho de água doce". [Blog Sala de Ensaio] 27 DE JANEIRO DE 2010

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