• Ana Paula Brasil

Acolhimento: onde termina o "eu", onde começa o "outro"?

Atualizado: 13 de Out de 2020


Se você já deu alguns passos no caminho do autoconhecimento, certamente já ouviu falar da necessidade de acolher suas dificuldades, limitações, sensações desagradáveis, comportamentos indesejados, desequilíbrios. Na prática de Yoga, acabamos por perceber que aquilo que experimentamos internamente resulta da percepção que temos de nós mesmos e do modo como esta identidade pessoal que assumimos interage com o mundo. E, neste ponto, a atitude de acolhimento está bastante associada à ideia de ser gentil e tolerante conosco, principalmente diante de nossas falhas. Também não é novidade que, ao praticar isto em relação a gente mesmo, esta atitude generosa acaba se estendendo aos nossos relacionamentos, transformando nosso modo de lidar com características e comportamentos que nos desagradam nos outros. Mas, afinal, o que é acolhimento? Como podemos desenvolver esta postura verdadeiramente em nossa vida? E como esta atitude pode nos levar a uma compreensão mais profunda de quem somos nós?

A atitude de acolhimento é um contraponto ao sentimento de negação, de rejeição. Internamente, não há diferença entre rejeitar algo em si ou no outro, a experiência de cisão é a mesma. Rejeitar é separar em dois: seja com uma percepção dividida de si mesmo, seja com a sensação de rompimento entre dois seres. No contexto do autoconhecimento, através da rejeição, o "eu" e o "outro" ganham forma, sendo "eu" tudo aquilo com o que me identifico e "o outro" tudo aquilo que me é estranho, tudo que não sou capaz de reconhecer ou aceitar como parte de mim. Então, acolher, essencialmente, pode ser a atitude de não rejeitar a existência de algo que nos desagrada, seja em nós ou em qualquer outro. Acolher não significa necessariamente abraçar, fortalecer ou perpetuar. Não significa escolher algo que não se deseja, nem tampouco superar ou transformar qualquer coisa. Acolher é uma atitude de trazer para si, de observar de perto algo desconhecido ou desagradável que está acontecendo com você ou com o outro.


Para praticar acolhimento, é preciso compreender que acolher envolve uma ação interna de baixar a guarda, permitir aproximação, recepcionar. É como receber uma visita estranha e de surpresa em casa. Você pode não estar à vontade com a situação, mas ainda assim agirá com boa vontade, gentileza, educação. Você dará espaço para que esta visita estranha te conte por que veio até a sua casa. Ouvir algo com atenção é acolher. Aceitar as coisas como elas são é acolher. Respeitar a dor, em si ou em outro, é acolher. A ação que se dá depois do verdadeiro acolhimento inclui escuta, aceitação, respeito. Às vezes, não é imediato, pode levar um tempo até que este espaço interior se abra, mas entender o acolhimento como uma ferramenta de conciliação e pode te ajudar a tornar esta atitude uma prática contínua em sua vida.


Através do acolhimento, podemos expandir nossa percepção não apenas sobre o outro, mas principalmente sobre nós mesmos. A compreensão de quem a gente é forma-se por aquilo com o que nos identificamos e, a todo momento, é reforçada por tudo aquilo que rejeitamos. A idéia do "eu sou isto; eu sou assim" só é possível pela sua forma de pensamento contrária: "eu não sou isto, eu não sou assim". É a partir destes pensamentos sobre o que somos que a noção mental de identidade ou ego, é estabelecida. No momento em que abrimos um espaço interno para recepcionar as experiências, seja observando o que nos agrada ou admitindo a existência de coisas que não desejamos em nós, sem assimilar ou rejeitar o que quer que seja, surge uma fresta nos limites da nossa própria identidade. Aos poucos, o acolhimento se tornará um caminho para desidentificação ou dissolução do ego. Admitir a existência de coisas desagradáveis em nós é admitir que não somos o que pensamos sobre nós. Admitir a existência de coisas que não desejamos é admitir que muitas coisas fogem ao nosso controle. É compreender que o verdadeiro privilégio da vida humana não está em estabelecer as coisas, mas em sua inteligência e liberdade para atravessá-las, conforme sua consciência, a todo momento. Seja lá você quem for, acolher te ajudará a se manifestar, verdadeira e integralmente, diante do que estiver acontecendo dentro de você ou ao seu redor.

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