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  • Ana Paula Brasil

Imagem ilustrativa a partir de original retirada do Portal BHAZ.


Eu não percebia, mas esperava o fim do sinal vermelho. Sentada no ônibus, com minha cabeça longe, voltada para o lado de fora da janela. Não teria notado nada disto, se não fosse ele a me olhar. Sentado em cima de um carro, olhou para mim com tanta insistência que me tirou os pensamentos. Fui automaticamente ao encontro de seu rosto. Nos olhamos. Ele esperou que eu virasse. Eu esperei que ele me ofendesse. E, como é dada a simplicidade, em poucos segundos de calma, reconhecemos de nós o olhar ingênuo. Ele sorriu. Eu sorri também. De lá, ele falou, enquanto apontava os ouvidos, "está ouvindo música, né?". Alargando o meu sorriso, balancei um sim. O sinal abriu. O ônibus se movimentou, desprendendo o nosso olhar, mas logo retornamos ao encontro. Ainda em pouca velocidade, o ônibus cruzou o carro parado ao meio-fio. Com outro sorriso, ele acenou um tchau. Contente, os devolvi. Era começo de tarde e este foi o meu primeiro motivo no dia para sorrir. Poucos minutos depois, desci do ônibus. Deu para sentir que fazia um belo sol.



[Blog Sala de Ensaio] 19 DE JANEIRO DE 2009

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  • Ana Paula Brasil


Você já ouviu falar que coragem significa agir com o coração?! Sei que neste momento, em que recebemos tantos estímulos sensoriais e lidamos com uma intensa demanda mental, parar para ouvir os batimentos cardíacos já parece papo zen, quem dirá compreender o que seria agir com o coração. Embora "ouvir o coração" possa não ser, na prática, uma saída clara para a maioria de nós, não me parece uma romântica coincidência que justo o coração, que costumamos referenciar como a morada do amor, nos aponte o caminho da coragem, ou seja, o caminho para atravessarmos os nossos medos.


Para começar esta conversa de maneira simples, penso que o primeiro passo para agirmos com o coração é observarmos o nosso coração enquanto agimos. Como um músculo involuntário, o nosso coração costuma ser muito preciso tanto para atender as demandas físicas do nosso corpo, quanto para reagir aos processos mentais que elaboramos, ainda que inconscientemente. A observação das reações físicas do coração amplia a nossa percepção sobre como cada pensamento, atividade e escolha que fazemos diariamente reverberam profundamente em nós. Compreender os efeitos sensoriais dos nossos pensamentos, palavras e ações é um passo importante para garantirmos saúde, bem-estar e alinharmos nosso comportamento e valores aos nossos anseios mais profundos. O exercício é se observar! Quando você recebe uma notícia, toma um susto, vê uma cena forte, imediatamente há uma reação: seu coração pode "parar", "acelerar", "apertar", "vibrar" de modo diferente. A gente pode sentir facilmente estas nuances quando encontramos uma nova paixão, quando recebemos uma boa notícia, quando estamos ao lado das pessoas que amamos.

Coragem: OUÇA O SEU CORAÇÃO E ATRAVESSE OS SEUS MEDOS!

No entanto, mesmo sem nada de novo no ar, todo o tempo o nosso corpo e os nossos batimentos cardíacos estão dando sinais de como estamos experimentando as situações ao longo do dia. Você pode estar no trabalho, lendo uma mensagem, pensando em algo que aconteceu, tendo uma conversa difícil ou vendo uma notícia assustadora na TV, sabiamente o seu corpo te falará se isto está te fazendo bem ou não. Ouvir e compreender estes sinais nos possibilitará agir de forma mais consciente em busca do nosso equilíbrio e bem-estar. Basta observar e se perguntar: "Como eu estou me sentindo agora?".


Saiba que, às vezes, é preciso dar um certo tempo para a resposta surgir, para identificarmos as nossas emoções. Esta resposta nem sempre precisa ser verbalizada, basta ser compreendida. E, tome cuidado para não transformar as suas emoções em justificativas para fazer ou não fazer algo: trata-se de perceber o seu estado interno e trabalhar para equilibrá-lo, mesmo que você precise realizar uma tarefa ou atravessar uma situação desagradável. Claro que, algumas vezes, as repostas podem apontar a necessidade de uma mudança externa, mas toda mudança começa de dentro para fora, pelo seu modo de lidar - física, mental e emocionalmente - com as circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis.


E em momentos de confusão e incertezas, que não sabemos como agir, o que o coração tem a nos revelar?!


É bem aí que a palavra coragem vai encontrar o seu sentido mais amplo. Nestes momentos, o coração pode ser o nosso maior guia e, acessando a sabedoria dele, podemos dissipar os nossos medos. Para as filosofias existenciais indianas, o apego é uma das principais fontes do sofrimento humano. É do apego que derivam os nossos medos mais profundos. Ele é a raiz das sensações desagradáveis, da luta desenfreada por segurança e do nosso desejo de manter as circunstâncias da vida sempre ao nosso favor. O medo também é considerado o sentimento contrário ao amor. É ele que, em decorrência do apego, nos confunde, nos impede de nos entregar incondicionalmente e de agir com renúncia.


Também para a filosofia do Yoga, o Anahata, chakra do coração ou plexo cardíaco, é a morada de jivatma, a nossa alma individual, que não só guarda toda a sabedoria da nossa existência como nos orienta na redescoberta da nossa verdadeira essência e na realização do nosso propósito espiritual e material.


O amor dissipa o medo: onde há amor, há capacidade de renúncia. O seu coração sempre lhe impulsionará pelo caminho do amor, ainda que pareça o caminho mais longo, difícil ou arriscado. É preciso parar, acalmar a mente, aquietar as emoções para ouvi-lo, sem interferência. Ainda que não pareça o caminho mais lógico, os impulsos do coração não deixam dúvidas e despertam a nossa coragem. No fundo, agir com o coração é fazer a única escolha possível, renunciando os resultados e aceitando as possíveis perdas, que cada escolha poderá gerar, pela fé e pelo desejo verdadeiro de estar em conexão com a sua essência e seguir o seu caminho evolutivo.



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  • Ana Paula Brasil

Atualizado: 16 de Out de 2020



"eu tenho um idílio de praia. de vida de encontro de areia e mar. uma crença sobre a minha verdadeira encarnação. como se eu mesma fosse uma praia, que numa noite de lua cheia, fez um pedido inconsequente e virou gente. e, em forma de gente, saiu andando pela terra, por curiosidade, procurando não sei o quê."




eu fora uma praia, que numa noite de lua cheia, fez um pedido inconsequente e virou gente. e, em forma de gente, saiu andando pela terra, por curiosidade, procurando não sei o quê. fui gente achando ser gente por um bom tempo. e como gente, por diversas vezes, fui à praia. deitei na areia e tomei sol. tive calor e tomei banho de mar. eu fui muito à praia, durante a minha infância e adolescência. eu sempre gostava muito de lá. gostava como gente gosta de praia, vento e verão no litoral. mas - já mulher, dentro do meu quarto, em minha casa, num dia que não teve nada de especial, eu deitei a cabeça no travesseiro e senti uma luz azulada iluminar-me o rosto. como os olhos de um amigo que há muito tempo não te vê. era a lua. naquele dia, eu - que na hora não soube - tive o primeiro sinal. aquela lua, sua luz intensa e estranha, não me era desconhecida. como gente que recebe uma boa notícia, logo depois, eu dormi com ela na cabeça. alegre até. em outra noite desimportante, vi a foto de um luar prateado no mar. linda também. e, na hora, pensei que aquela foto lembrava a minha infância. mas eu não sabia bem o quê da minha infância, nem dia, nem noite nenhuma. levei a foto para cama, dormi por cima dela sem perceber. de manhã, quando acordei com a foto amassada, ainda tinha no peito aquela tristeza típica de quem tem saudade. assim mesmo, foi só no terceiro sinal que entendi tudo. em outra noite. nesta já tinha algo de anormal no ar. passei o dia inteiro esperando alguma coisa, não sei o quê, que, quando cruzei a rua de casa, totalmente deserta, umas sete da noite, encontrei. a lua, cheia, no céu. foi olhar para ela e descobrir bruscamente que eu não era gente. que eu nunca fora gente. grande susto, daquele que suspende a dor. a notícia foi aterradora. corri para casa. ao abrir a porta, som de concha. minha alma em regressão. desabei, desaguei. corri para praia. com a roupa do corpo, tomei banho de areia. arrastei-me suplicante até o mar. água quente, calma, maternal. lavou-me o corpo, tirando de mim a areia branca. aconchegou tanto a minha alma, que adormeci no mar. até um moço me despertar na beira, de manhãzinha, antes mesmo do sol. era um pescador. deu para ver que daquilo ele sabia tanto quanto eu. não me perguntou nada, nem se eu estava bem. apenas me disse "vai para casa e toma um banho de água doce". [Blog Sala de Ensaio] 27 DE JANEIRO DE 2010

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