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Para quem tinha alguma dúvida, 2020 deixou bem claro: não estamos no controle de quase nada! Ainda que façamos planos, que pensemos sobre nossas escolhas, que nos esforcemos para manter as coisas em seu devido lugar, a vida tem e toma seus próprios rumos. Uma coisa é certa, uma hora ou outra, atravessaremos uma área de turbulência. Ela pode vir como uma pandemia, a saída de um emprego, o fim de um relacionamento ou mesmo com a perda de alguém querido. Saindo da dualidade de legitimar ou desmerecer a nossa própria dor, podemos refletir que da mesma forma que a impermanência é a natureza da vida; muitas vezes, ela nos deixa sem saber como e em qual direção devemos caminhar.


Sem dúvidas, compreender a vida como uma sucessão de experiências passageiras, orquestradas por leis que fogem ao nosso controle, direciona o nosso olhar para o que realmente importa. Estaria a vida nos objetivos que alcançamos ou na experiência de cada passo que nos leva a realização? O entendimento da vida como processo, sempre poderá levar a gente ao próximo passo. A percepção de que as mudanças são inevitáveis e que até as nossas próprias escolhas nos geram desconfortos e cansaços, pode nos motivar a conhecer um pouco sobre as filosofias indianas e seus caminhos de libertação. Quem sabe um olhar mais profundo para o que está acontecendo do lado de dentro nos revele às raízes do sofrimento e possa frear nossa busca incessante por satisfação?!



Muitas vezes, temos a falsa impressão de que coisas externas podem garantir nosso bem-estar e atrelamos nossa felicidade ou sucesso a conquistas materiais, profissionais ou até mesmo a status de relacionamento – o que nos leva a um estilo de vida hostil, pautado em competição, exploração, acúmulo e medo. No entanto, em momentos de turbulência onde as estruturas aparentemente seguras começam a ruir, somos obrigados a parar e procurar outra direção.




Se, do ponto de vista externo, tudo é transitório, apenas no ambiente interno, onde experimentamos a vida e todo o seu sabor, é possível cultivarmos segurança, conforto e equanimidade; uma vez que não podemos controlar as circunstâncias externas, mas podemos refletir sobre como agir perante elas. Manter o nosso ambiente interno seguro e acolhedor nos dará clareza e força para atravessarmos as circunstâncias desafiadoras das nossas jornadas -- por isto, a necessidade de desenvolvermos nossas capacidades físicas, emocionais e mentais continuamente, através de práticas de autoconhecimento e consciência espiritual. A prática regular das técnicas do Yoga nos ajuda a cultivar estas qualidades, oferece ferramentas para atravessarmos momentos de crise e nos dá conhecimento para experimentarmos a vida com equilíbrio e plenitude.


Esta reflexão é um convite para você exercitar olhar a vida pelo lado de dentro, com estabilidade e conforto, diante das travessias, partidas e chegadas que 2021 lhe trará!


Espero te encontrar por aqui para cultivarmos juntos sabedoria e Yoga! ♡

  • Ana Paula Brasil

Imagem ilustrativa a partir de original retirada do Portal BHAZ.


Eu não percebia, mas esperava o fim do sinal vermelho. Sentada no ônibus, com minha cabeça longe, voltada para o lado de fora da janela. Não teria notado nada disto, se não fosse ele a me olhar. Sentado em cima de um carro, olhou para mim com tanta insistência que me tirou os pensamentos. Fui automaticamente ao encontro de seu rosto. Nos olhamos. Ele esperou que eu virasse. Eu esperei que ele me ofendesse. E, como é dada a simplicidade, em poucos segundos de calma, reconhecemos de nós o olhar ingênuo. Ele sorriu. Eu sorri também. De lá, ele falou, enquanto apontava os ouvidos, "está ouvindo música, né?". Alargando o meu sorriso, balancei um sim. O sinal abriu. O ônibus se movimentou, desprendendo o nosso olhar, mas logo retornamos ao encontro. Ainda em pouca velocidade, o ônibus cruzou o carro parado ao meio-fio. Com outro sorriso, ele acenou um tchau. Contente, os devolvi. Era começo de tarde e este foi o meu primeiro motivo no dia para sorrir. Poucos minutos depois, desci do ônibus. Deu para sentir que fazia um belo sol.



[Blog Sala de Ensaio] 19 DE JANEIRO DE 2009

  • Ana Paula Brasil


Você já ouviu falar que coragem significa agir com o coração?! Sei que neste momento, em que recebemos tantos estímulos sensoriais e lidamos com uma intensa demanda mental, parar para ouvir os batimentos cardíacos já parece papo zen, quem dirá compreender o que seria agir com o coração. Embora "ouvir o coração" possa não ser, na prática, uma saída clara para a maioria de nós, não me parece uma romântica coincidência que justo o coração, que costumamos referenciar como a morada do amor, nos aponte o caminho da coragem, ou seja, o caminho para atravessarmos os nossos medos.


Para começar esta conversa de maneira simples, penso que o primeiro passo para agirmos com o coração é observarmos o nosso coração enquanto agimos. Como um músculo involuntário, o nosso coração costuma ser muito preciso tanto para atender as demandas físicas do nosso corpo, quanto para reagir aos processos mentais que elaboramos, ainda que inconscientemente. A observação das reações físicas do coração amplia a nossa percepção sobre como cada pensamento, atividade e escolha que fazemos diariamente reverberam profundamente em nós. Compreender os efeitos sensoriais dos nossos pensamentos, palavras e ações é um passo importante para garantirmos saúde, bem-estar e alinharmos nosso comportamento e valores aos nossos anseios mais profundos. O exercício é se observar! Quando você recebe uma notícia, toma um susto, vê uma cena forte, imediatamente há uma reação: seu coração pode "parar", "acelerar", "apertar", "vibrar" de modo diferente. A gente pode sentir facilmente estas nuances quando encontramos uma nova paixão, quando recebemos uma boa notícia, quando estamos ao lado das pessoas que amamos.

No entanto, mesmo sem nada de novo no ar, todo o tempo o nosso corpo e os nossos batimentos cardíacos estão dando sinais de como estamos experimentando as situações ao longo do dia. Você pode estar no trabalho, lendo uma mensagem, pensando em algo que aconteceu, tendo uma conversa difícil ou vendo uma notícia assustadora na TV, sabiamente o seu corpo te falará se isto está te fazendo bem ou não. Ouvir e compreender estes sinais nos possibilitará agir de forma mais consciente em busca do nosso equilíbrio e bem-estar. Basta observar e se perguntar: "Como eu estou me sentindo agora?".


Saiba que, às vezes, é preciso dar um certo tempo para a resposta surgir, para identificarmos as nossas emoções. Esta resposta nem sempre precisa ser verbalizada, basta ser compreendida. E, tome cuidado para não transformar as suas emoções em justificativas para fazer ou não fazer algo: trata-se de perceber o seu estado interno e trabalhar para equilibrá-lo, mesmo que você precise realizar uma tarefa ou atravessar uma situação desagradável. Claro que, algumas vezes, as repostas podem apontar a necessidade de uma mudança externa, mas toda mudança começa de dentro para fora, pelo seu modo de lidar - física, mental e emocionalmente - com as circunstâncias favoráveis ou desfavoráveis.


E em momentos de confusão e incertezas, que não sabemos como agir, o que o coração tem a nos revelar?!


É bem aí que a palavra coragem vai encontrar o seu sentido mais amplo. Nestes momentos, o coração pode ser o nosso maior guia e, acessando a sabedoria dele, podemos dissipar os nossos medos. Para as filosofias existenciais indianas, o apego é uma das principais fontes do sofrimento humano. É do apego que derivam os nossos medos mais profundos. Ele é a raiz das sensações desagradáveis, da luta desenfreada por segurança e do nosso desejo de manter as circunstâncias da vida sempre ao nosso favor. O medo também é considerado o sentimento contrário ao amor. É ele que, em decorrência do apego, nos confunde, nos impede de nos entregar incondicionalmente e de agir com renúncia.


Também para a filosofia do Yoga, o Anahata, chakra do coração ou plexo cardíaco, é a morada de jivatma, a nossa alma individual, que não só guarda toda a sabedoria da nossa existência como nos orienta na redescoberta da nossa verdadeira essência e na realização do nosso propósito espiritual e material.


O amor dissipa o medo: onde há amor, há capacidade de renúncia. O seu coração sempre lhe impulsionará pelo caminho do amor, ainda que pareça o caminho mais longo, difícil ou arriscado. É preciso parar, acalmar a mente, aquietar as emoções para ouvi-lo, sem interferência. Ainda que não pareça o caminho mais lógico, os impulsos do coração não deixam dúvidas e despertam a nossa coragem. No fundo, agir com o coração é fazer a única escolha possível, renunciando os resultados e aceitando as possíveis perdas, que cada escolha poderá gerar, pela fé e pelo desejo verdadeiro de estar em conexão com a sua essência e seguir o seu caminho evolutivo.



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